Silvanna Bárbara, professora do Escola Nota 10, com uma blusa de manga longa branca e cabelo cacheado curto

Educação: quando ensinar também transforma quem ensina

No programa Escola Nota 10, ao lado de trabalhadores que retomaram os estudos, a professora Silvana Bárbara testemunha mudanças que vão muito além da alfabetização

Durante muito tempo, Silvana Bárbara Gonçalves da Silva acreditou que conhecia profundamente o impacto que a educação pode ter na vida de uma pessoa. Filha de pais que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos, cresceu em Curitiba, no bairro Alto Boqueirão, entendendo desde cedo que estudar, para muitas famílias, não é um caminho natural, mas uma conquista construída com esforço contínuo.

Em casa, a educação nunca foi tratada como obrigação, mas como a possibilidade para um futuro melhor. Era quase um pacto silencioso. Os pais trabalhavam para que os filhos pudessem alcançar oportunidades que eles próprios não tiveram. “A estratégia dos meus pais foi fazer de tudo para que os filhos pudessem estudar e ter melhores oportunidades. E eles conseguiram”, conta.

Silvana fez formação técnica, graduação, mestrado e hoje cursa doutorado. Construiu uma trajetória profundamente ligada à pesquisa, à universidade e ao ambiente acadêmico. Durante anos, acreditou que era ali que exerceria sua relação com o ensino.

Mas foi dentro das salas de aula do programa Escola Nota 10, realizado nos canteiros de obras da MRV&CO, que ela descobriu uma dimensão da educação que ainda não conhecia.

Desde 2024, Silvana acompanha trabalhadores que decidiram retomar os estudos depois de anos (às vezes décadas) afastados da escola. Pessoas que chegam para as aulas antes mesmo de encarar um dia inteiro de trabalho, responsabilidades e histórias interrompidas muito cedo pela necessidade de sobreviver.

Silvana Bárbara de blusa de frio cinza em frente a uma mesa laranja e um quadro escolar branco

Silvana Bárbara é professora do programa Escola Nota 10. Créditos: Acervo Pessoal

Muito além do conteúdo

No começo, ela própria precisou atravessar um deslocamento. Acostumada ao ambiente universitário e à linguagem acadêmica, percebeu rapidamente que não bastava dominar o conteúdo. Era preciso aprender outras formas de escuta, adaptar a linguagem, entender ritmos diferentes e, principalmente, compreender os medos silenciosos presentes naquela sala. Porque voltar a estudar depois de tantos anos exige coragem.

Entre os alunos existe o receio de não acompanhar, o constrangimento de errar, o medo de esquecer o que parecia básico e, muitas vezes, a sensação de não pertencer mais àquele espaço. Silvana começou a perceber tudo isso nos detalhes: na hesitação antes de fazer uma pergunta, na dificuldade de ler em voz alta, na necessidade constante de pedir confirmação, no silêncio de quem, durante muito tempo, acreditou que aprender já não era mais possível.

“Eu sou muito acadêmica, vim da área da pesquisa. Então, trabalhar com esse público exigiu outros aprendizados da minha parte. Precisei buscar formas de ensinar e até mesmo uma linguagem que esses trabalhadores compreendessem”, afirma.

Aos poucos, a professora passou a enxergar que seu papel ali começava antes mesmo da matéria. Antes de ensinar português, matemática ou interpretação de texto, era preciso construir confiança e criar um ambiente em que ninguém tivesse vergonha de tentar. Foi nesse processo que ela também começou a mudar.

As histórias que escuta diariamente alteraram sua forma de enxergar não apenas a educação, mas as próprias pessoas. Muitos daqueles trabalhadores abandonaram a escola ainda crianças para ajudar no sustento da família. Outros cresceram acreditando que estudar era um privilégio distante demais da realidade que viviam. Ainda assim, anos depois, escolheram voltar. E essa permanência passou a provocar Silvana profundamente.

Ela percebeu que, enquanto ensinava conteúdos, também aprendia sobre resistência, dignidade e recomeço. Aprendia sobre pessoas que seguiram em frente mesmo depois de inúmeras interrupções. Pessoas que carregam jornadas difíceis e, apesar disso, ainda encontram espaço para tentar outra vez.

Lições que vieram da escuta

Com o tempo, as transformações começaram a aparecer dentro da sala de aula: na primeira leitura feita em voz alta, na coragem de levantar a mão, na frase escrita sem pedir ajuda a cada linha e na postura de quem, aos poucos, volta a ocupar um espaço que parecia perdido.

Mas o que mais marcou Silvana não foram apenas os avanços pedagógicos. Foi perceber como a educação modifica a forma como uma pessoa passa a se enxergar. “As aulas abrem a cabeça, despertam vontade de se posicionar, de falar melhor, de entender o mundo. Quando alguém percebe que ainda pode aprender, muita coisa muda por dentro”, diz.

E, de certa forma, algo também mudou nela. Porque foi convivendo com aquelas trajetórias que Silvana entendeu que ensinar não significa apenas transmitir conhecimento. Às vezes, significa testemunhar o momento exato em que alguém volta a acreditar em si mesmo. E nenhuma formação acadêmica havia preparado ela para o impacto humano disso.

“As aulas abrem a cabeça, despertam vontade de se posicionar, de falar melhor, de entender o mundo. Quando alguém percebe que ainda pode aprender, muita coisa muda por dentro"