
Macaé, no norte fluminense, ganhou o apelido de “capital nacional do petróleo”, famosa pelas plataformas no mar. Os jovens macaenses crescem mirando oportunidades de futuro nas centenas de empresas de óleo e gás. Mas não a Victória Miranda, que decidiu muito cedo que iria construir sua história pela engenharia civil. É que, para ela, imaginar o amanhã, tinha que ter conexão com as experiências que a formaram, com os passos que a ajudaram a trilhar seu próprio caminho.
Do pai, vinha a imensa admiração pela profissão de pedreiro. “Ele tem um trabalho tão bom, tão bonito e bem cuidado que eu ficava realmente encantada. Decidi pela engenharia civil ainda na adolescência”, lembra. E mesmo que a opção pelo curso representasse uma herança do ofício do pai, o significado de ingressar numa universidade ia além.
Victória é a primeira da família a cursar o ensino superior, um marco para todos eles que acreditaram e investiram na força transformadora da educação. Sua mãe, Vânia, retomou os estudos e concluiu o ensino médio aos 42 anos, pouco tempo antes de a filha terminar o ensino básico. O exemplo e o incentivo dos pais foram internalizados por ela desde menina e isso fez a diferença: “meu objetivo de vida desde pequena foi estudar, sempre gostei muito”.
Para a jovem macaense, tornar-se engenheira civil seria certamente um percurso menos óbvio e cheio de desafios. Mas as conquistas já têm o tamanho da sua coragem e urgência em viver bem. Aos 23 anos, Victória faz faculdade e trabalha como estagiária na MRV, é mãe de Kiara (que faz 1 ano em outubro) e esposa de Maycon, com quem comprou o primeiro apartamento para viver com a família que também nascia ali. Em pouco tempo, o mundo de Victória se alargou. No Instagram e no TikTok, ela compartilha os primeiros passos da rotina profissional e inspira outros jovens. Três anos antes, “eu não podia nem imaginar, porque nada disso era sequer um sonho para mim”.

Victória Miranda decidiu pela engenharia ainda na adolescência
Crédito: acervo pessoal
A primeira tentativa de ingressar numa universidade pública foi frustrada. Ninguém disse que seria fácil. Com o Enem somente no ano seguinte e sem a garantia de aprovação, Victória decidiu que “não podia ficar esperando”. “Achei a faculdade, vi que conseguiria pagar, fiz a matrícula escondida, não contei para ninguém. Eu tinha medo de dar errado.” Só quando teve certeza, pôde enfim dizer: “mãe, pai: vou fazer faculdade!”.
Victória chegou na universidade com fome de aprender, e já no primeiro período, desejava que os conceitos encontrassem materialidade prática. Lembrava-se do pai e do que ganha corpo num canteiro de obras. Com o estágio, buscava pagar a faculdade e também aprender e, mesmo se vendo “ainda crua”, sentia a necessidade de dar seus próprios passos. “Nunca tinha pisado numa obra por mim mesma, só as que o meu pai fazia.”
A “cidade do petróleo” tornava mais raras as opções de estágios alinhados à sua graduação; em função da demanda, o grande volume de vagas vinha associado à engenharia mecânica, não à civil. Ainda assim, no terceiro período, Victória correu atrás quando soube do processo seletivo para estagiar na obra do Mar da Noruega, um novo condomínio da MRV a 350 metros da praia. A oportunidade era ideal, não fosse um obstáculo: era preciso estar no oitavo período, mais próximo de se formar.
Mais uma vez, sem tempo para desistir, Victória decidiu tentar. “Gosto de lembrar disso: me inscrevi e fui pessoalmente na obra entregar meu currículo. Me chamaram para a entrevista já no dia seguinte. Tinha gente que cumpria os requisitos e até profissional formado concorrendo. Sinto que mostrei tanto que eu queria estar ali que me contrataram sem se importar em eu estar começando!”, diz com orgulho.
Na construção do Mar da Noruega, encontrou uma sala de aula prática, exatamente como desejava. Com a obra em acabamento, aprendeu “muita coisa em pouco tempo”, como ela diz: pintura, gesso, instalação de pisos e esquadrias, acomodação de louças, metais e afins. Em nove meses de estágio, viu infraestruturas ganharem corpo e se parecerem com o que reconhecemos como uma moradia.
Pertinho do fim deste ciclo, descobriu o início de outro, também de nove meses: Victória estava grávida.

Victória e a filha, Kiara
Crédito: acervo pessoal
Ela e o Maycon, que se conheciam desde a escola, logo decidiram dividir a vida. “Um dia ele me convidou para sair e, no sábado seguinte, me pediu em namoro. Era outubro e, já em janeiro, fomos morar juntos”, lembra.
E se quem casa, quer casa, para ela não podia ser qualquer lar. “Casa de homem solteiro só tem uma panela e uma cama, a gente queria algo melhor”. Então sem a comprovação de renda fixa de ambos, o pedido de financiamento foi negado. A virada de chave veio quando Maycon foi contratado para trabalhar offshore. Desta vez, a vocação da cidade cumpriu papel de aliado.
Casaram-se em 19 setembro de 2025, Victória então com 22 anos e Maycon com 23. Agora empregados, puderam somar as rendas para tentar outra vez o processo de compra de um imóvel próprio. Com a família crescendo, faziam questão de um bom apartamento. “O objetivo era um lugar legal para a nossa filha crescer”.
Decidir não foi difícil e a chegada da Kiara trouxe ainda mais ritmo e senso de direção. Tinha que ser no Mar da Noruega, o mesmo condomínio que Victória ajudou a construir. “Eu confiava na obra, sabia que era tudo impecável, uma obra bonita e um lugar legal para se viver. Eu tinha fé que ia dar certo.” E deu! Um misto de conquista e de “alívio”, ela diz. 22 de setembro, apenas três dias depois de se casarem, eles pegaram as chaves do primeiro apartamento da família e começaram a pensar em mobiliar, deixá-lo com a cara da família.
Kiara estava para nascer; o tempo não podia dormir no ponto. E, assim que Maycon voltou de mais um período embarcado na plataforma de petróleo, eles fizeram a mudança apenas com o que elegeram “essencial”: roupas e a mesa que Victória usava para estudar. “A gente entrou no apartamento com uma cama nova, um monte de caixas e só. Não tinha geladeira, fogão, nada”, lembra. O vazio dos móveis cedeu lugar à emoção. “Eu lembro até hoje da sensação de entrar na sua própria casa e saber que você pode fazer tudo do seu jeito. Um enorme sentimento de gratidão.”
Com um empréstimo no banco, conseguiram mobiliar o apartamento. Com móveis e aconchego no lugar, três dias depois nasceu Kiara, chegando em uma casa pronta para recebê-la. Ali, ela aprendeu a engatinhar, começa a dizer as primeiras palavras e dar os primeiros passos, e um dia irá aprender a ler e a escrever.
O quarto dela segue sendo o favorito da mãe. “Gosto porque ele é muito delicado, muito a cara dela. E esse tem sido um momento muito bom estar com ela lá. Ela está muito esperta, repete os gestos, não para um minuto. Tem sido meu momento favorito.”
Sete meses após se tornar mãe, Victória está de volta à MRV, agora em uma nova obra. Ela acompanha o começo de um empreendimento e aprende sobre a fundação e as etapas iniciais de um projeto. Já percorreu metade do caminho para se tornar engenheira civil, e segue aprendendo todos os dias.
Das janelas de casa, entra o vento que deixa o apartamento arejado. No pilotis, entre cada bloco do condomínio, encontra uma área verde com árvores e flores enquanto passeia com Kiara. Piscina, parquinho, espaço pet e salão de festas compõem a área de lazer do Mar da Noruega. Victória olha para trás e diz não imaginar tamanhas conquistas, e tão jovem. Que conquistaria uma vida que comportasse tudo isso. E nos convida a refletir: “a internet demonstra tanta facilidade em conseguir as coisas. As pessoas não se reconhecem e se frustram muito. É muita coisa conseguir um carro, uma moto, uma faculdade, um apartamento. É uma realização muito grande e é possível! Acho que a Victória de dez anos atrás nunca sonharia que poderia ter uma vida tão confortável.” E que bom que ela se permitiu sonhar.