
O futuro da habitação no Brasil passa por dignidade, pela valorização da convivência e confiança entre as pessoas e pela ocupação da rua. O CEO da MRV, Eduardo Fischer, e Edu Lyra, fundador e CEO da Gerando Falcões, conversaram sobre a importância e universo simbólico por trás de um teto na vida de uma pessoa - tanto na perspectiva da biografia humana, quanto no das estatísticas sociais.
O encontro foi mediado por Paulo Lima, comunicador e fundador da Trip, e começou por um aspecto elementar, mas muitas vezes pouco lembrado: uma casa limpa e iluminada não é só conforto, é também dignidade e reorganização da alma. A partir daí, vieram temas como infância, pandemia, segurança pública, a cidade colombiana de Medellín, o projeto de renovação dos banheiros públicos de Tóquio, pichação e “urbanismo social”. Uma conversa que levou a uma conclusão poderosa: uma casa vira lar quando há um propósito compartilhado.
Leia a seguir os melhores momentos desse bate-papo.
Paulo Lima: Quero começar falando sobre o significado do teto, e o que a casa representa para além do abrigo físico, como símbolo de pertencimento. O que existe por trás desse momento de receber as chaves?
Edu Lyra: Eu venho de uma família muito pobre, que morava num barraco. E em barraco tem risco iminente de queda, é aquela situação de extrema pobreza. A minha família viveu boa parte da vida numa saga, numa busca constante por poder ter uma casa, por poder ter um lar.
Essa busca traduz muito o sonho do brasileiro, porque o brasileiro sente que saiu da pobreza quando tem uma casa. Lembro que eu perguntava muito pra minha mãe: “Mãe, você é feliz?”, e ela respondia: “não.” Depois, quando a gente já tinha uma casa, com reboco e pintura, eu perguntava de novo: “mãe, você é feliz?”, e ela dizia: “agora, sim.” Depois veio a máquina de lavar: “mãe, você é feliz? Agora, muito.” Cada vez ela ficava mais feliz. A felicidade dela se materializava pelos avanços na casa.
Porque tomar banho num banheiro onde entra vento, sem reboco, é uma coisa. Ter o espaço seco e o espaço molhado é outra. Aquilo simbolizava dignidade. Então, eu acho que a casa, o teto bem-acabado, é o retrato do sonho do brasileiro, e do sentimento de dignidade.
Paulo Lima: Fischer, o Lyra trouxe as lembranças da infância dele. Quais são suas memórias mais antigas com relação ao teto, ao abrigo?
Eduardo Fischer: Eu vim de um lar privilegiado, e as minhas recordações eram um pouco o que você (Paulo Lima) falou no início: de lar, de segurança. Minha família é grande. Somos cinco filhos. Então era sempre aquele refúgio.
Eu não passei pela experiência da falta, de não ter isso, então é difícil falar desse lugar. Mas imagino que seja exatamente o que o Edu fala: esse passo não muda só a vida das pessoas, muda a vida das gerações. Acho que é por isso que essa emoção é tão forte: as pessoas não estão vislumbrando apenas a vida delas mudar, estão vislumbrando a vida dos filhos mudar.

Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO
“Acho que é por isso que essa emoção é tão forte: as pessoas não estão vislumbrando apenas a vida delas mudar, estão vislumbrando a vida dos filhos mudar." Eduardo Fischer
Paulo Lima: Existe um influenciador na internet que mora na Rocinha e fica mostrando vários lados da comunidade, desde a alegria e o senso de pertencimento até uma parte muito dura. Ele mostra vielas que vão ficando tão estreitas ao ponto de precisar de luz elétrica ao meio-dia porque não entra luz nenhuma. E ele apresentou um dado que me chocou: a Rocinha tem o maior índice de tuberculose do Brasil, por causa da umidade e da insalubridade. Lyra, o que acontece quando a inteligência da arquitetura e da engenharia chega nesses lugares?
Edu Lyra: O nome do talento que você está falando é Ruan Juliet (@ruanjuliet), lá da Rocinha. O Ruan é um caso raro, porque as redes sociais e um celular na mão empoderaram um menino que estava destinado a ser pobre a vida inteira. Ele começou a ganhar dinheiro com a internet. E sabe qual foi a primeira decisão que tomou quando começou a ganhar dinheiro? Construir uma casa para a família dele. Eles moravam numa casa muito pequena, insalubre, apertada, sem ventilação, tudo isso que você falou.
Ele comprou um espaço e está construindo um prédio de três andares para a família dele. Isso é muito simbólico: o favelado, quando ascende, materializa o sucesso construindo uma casa. É a forma de dizer: “Pai, mãe, eu venci. Valeu a pena o esforço de vocês.” Ainda é na favela, mas é algo muito mais digno, estruturado. Por isso o tema da habitação é tão importante. Às vezes a gente cobra que o menino da favela tire nota 10 na escola, mas ele não tem banheiro, faz as necessidades num buraco cavado no chão. Como o Brasil quer que esse menino se desenvolva plenamente sem dignidade básica?
Paulo Lima: Fischer, você me disse antes que mais de 90% dos clientes da MRV estão comprando o primeiro imóvel, imagino que você já tenha visto muitas vezes isso que o Edu relatou... Ao mesmo tempo, a MRV é hoje a maior construtora do Brasil. Essa essência ainda está viva em vocês? Não corre o risco de virar uma corporação que esquece a emoção daquele momento da chave, da lágrima?
Eduardo Fischer: Acho que os próprios clientes não deixam isso acontecer. É uma conexão muito forte. E internamente a gente reforça o tempo todo: o cliente em primeiro lugar. Criamos ritos, por exemplo, o momento que chamamos de “entrega dos sonhos”. É uma celebração, não só para quem recebe, mas para a gente também.
Paulo Lima: Até pouco tempo atrás, o filho em casa era sinônimo de segurança. Agora, muitas vezes, o filho está no quarto, conectado numa tela e pode estar mais em perigo do que se estivesse na rua. Lyra, você sente isso nas comunidades?
Edu Lyra: Sim. Eu sinto falta de ver crianças jogando bola na rua, por exemplo. A casa é tudo isso, e agora vem essa complexidade do digital. Na pandemia, a gente redescobriu o espaço da casa, onde bate o sol, onde é gostoso ficar. Mas, nas favelas, “ficar em casa” foi um desastre humanitário. Como deixar dez pessoas dentro de dois cômodos? Muitos projetos da Gerando Falcões nasceram disso, como a Favela 3D, reformas de banheiros e parcerias com empresas como a MRV.
Eduardo Fischer: O Edu falou algo interessante: a pandemia foi um marco. Antes, havia uma tendência dos apartamentos encolherem. Era viver mais na rua, estar menos dentro (de casa). Mas a pandemia virou isso de ponta-cabeça: agora as pessoas querem espaço, luz, varanda, áreas de convivência. E isso se refletiu até no nosso produto imobiliário. O público, mesmo nos segmentos de entrada, passou a querer uma área de lazer maior, piscina, quadra, tudo dentro do condomínio.
O Cidade Sete Sóis, da MRV, nasceu dessa nova lógica, de resgatar a experiência de conexão. Ele tem comércio, segurança planejada, praças, parques, calçadas largas, paisagismo. Tudo para que as pessoas saiam de casa e convivam. As pessoas começaram a pedir isso. “Eu quero um lugar onde eu possa caminhar, ver gente, conversar.” A ideia é simples: as pessoas precisam voltar para rua.

Projeto Cidade Sete Sóis Pirituba, a smartcidade da MRV
“Porque tomar banho num banheiro onde entra vento, sem reboco, é uma coisa. Ter o espaço seco e o espaço molhado é outra. Aquilo simbolizava dignidade. Então eu acho que a casa, o teto bem acabado, é o retrato do sonho do brasileiro, e do sentimento de dignidade." Edu Lyra
Paulo Lima: Nas pesquisas sobre os maiores problemas do Brasil, a segurança ultrapassou a saúde. É o tema que mais preocupa hoje. As periferias têm muito a ensinar sobre convivência em espaços densos. Queria te ouvir sobre isso, Lyra.
Edu Lyra: Tenho ido muito para Medellín, na Colômbia, que era o inferno na Terra nos anos de Pablo Escobar, com os toques de recolher às seis, bombas, medo. E eles conseguiram transformar a cidade por meio do urbanismo social. Lá, aprendi uma coisa forte. Perguntei pra um amigo: "qual é o contrário de insegurança?”. E ele respondeu: “convivência". Quando as pessoas estão na rua, se conhecem, se tocam, o medo diminui.
Levo muitos amigos à favela, e digo: “Você está no lugar mais seguro do Brasil agora. Mais seguro que a avenida Faria Lima [São Paulo].” Porque ali existe comunidade, confiança. A mulher deixa o filho com a vizinha, empresta o feijão, compartilha o gás. É essa rede que dá segurança. O Brasil precisa resgatar isso: a comunidade vem de “comungar”, de dividir, conviver. E esse talvez seja o maior ensinamento das favelas.
Paulo Lima: Me lembrei do projeto dos banheiros públicos em Tóquio. Os banheiros eram horríveis, e o governo convidou 16 arquitetos renomados para reinventá-los. Virou um símbolo de como o design e a arquitetura podem mudar o comportamento das pessoas. Queria saber se vocês têm visto exemplos assim.
Eduardo Fischer: O poder da comunidade é gigantesco. Quando as pessoas se agrupam, o desrespeito desaparece. Um exemplo simples: há alguns anos, tínhamos pichação nos muros das obras. Colocamos uma plaquinha dizendo que, a cada mês sem pichação, doaríamos uma cesta básica para a associação do bairro. Nunca mais picharam.
Por quê? Porque virou um pacto coletivo, a comunidade começou a cuidar do muro. Pequenas ações assim criam pertencimento. A comunidade é o ente mais eficiente para gerar segurança. E o urbanismo tem papel crucial nisso. Quando as pessoas ocupam o espaço público, a violência recua. Não precisa só de polícia, precisa de gente.
Paulo Lima: Lyra, como você acha que será a casa do futuro no Brasil? Ou: o que é essencial numa casa?
Edu Lyra: Quando a gente estava fazendo o projeto da Favela Marte, nossa preocupação era que não fosse só uma casa, mas um lar. O lar tem essa composição de tudo que falamos aqui: convivência, diálogo, valores. E isso cabe numa mansão ou num barraco.
Eu me lembro: minha casa era o barraco mais cheiroso e limpo da favela. Minha mãe tinha um apego pela limpeza e dizia: “O diabo mora na sujeira.” Hoje entendo que o “diabo”, pra ela, era sinônimo de pobreza. Eu só fui descobrir que era pobre depois de grande. Ela dizia: “Você é rico. A única coisa que não tem é dinheiro, por enquanto.”
O lar é esse espaço de construção de identidade e sonho. E, claro, tem o lado prático também: a casa do futuro precisa ter privada, pia, chuveiro, geladeira, comida e CEP. Milhões de brasileiros não têm CEP. Isso é um fracasso moral.
Paulo Lima: Fischer, o que você vê como essencial numa casa para que a pessoa se sinta plena?
Eduardo Fischer: É mais básico do que parece. A gente ainda está no estágio de querer “qualquer uma” porque há escassez plena, as pessoas querem o que conseguem alcançar. E mesmo esse mínimo já é gigantesco. Porque a compra da casa é o maior passo da vida para muita gente. É o primeiro patrimônio.
"O Brasil precisa resgatar isso: a comunidade vem de comungar, de dividir, conviver. E esse talvez seja o maior ensinamento das favelas." Eduardo Lyra
Paulo Lima: Queria propor uma dinâmica: que vocês fizessem perguntas um para o outro.
Edu Lyra: Fischer, como manter um sonho vivo, um exército motivado, e ao mesmo tempo gerenciar toda a complexidade de entregar dezenas de milhares de casas e ser a maior empresa do setor na América Latina?
Eduardo Fischer: A resposta é simples. A MRV, assim como todas as empresas, é feita de pessoas e ponto final. O resto é janela, porta, escritório. A construção civil é artesanal. Tudo depende de gente. Então, o segredo do nosso sucesso está exclusivamente no nosso time.
Paulo Lima: Agora é com você, Fischer.
Eduardo Fischer: Uma curiosidade pessoal: você tem um propósito muito claro e, quando a gente tem um propósito tão claro, a coisa flui. Eu mesmo não sei se tenho essa clareza toda. O que me move é ver a mudança acontecer. Mas é diferente de acordar com um propósito escrito na alma. Então, como você encontrou esse propósito? E o que te mantém nele até hoje, com tanta clareza?
Edu Lyra: O meu propósito nasceu da dor. Não nasceu de um exercício racional, nem de um livro. Na dor, você encontra um sentido porque, se não encontrar, enlouquece.
Minha mãe dizia: “Meu filho, não seja vítima do mundo, seja autor dele.” Essa frase virou o eixo da minha vida. Eu olhava pra nossa pobreza e pensava: “Não quero que ninguém viva o que eu vivi.” Então, o propósito nasceu desse desejo, o de transformar a dor em motor, de não deixar o sofrimento ser em vão.
E, depois que você entende o tamanho da desigualdade no Brasil, não dá pra “desver”. Minha vida virou tentar mudar isso, nem que seja um pedacinho. E isso acabou me salvando também. O propósito dá sentido à existência.
Paulo Lima: Tem um campo de propósito que une vocês, e acho que isso é o mais forte dessa conversa. A casa, no fim, é o símbolo disso tudo, é onde a vida acontece. E o que vocês dois fazem, cada um de um lado, é justamente dar condição para que as pessoas possam viver a própria história com dignidade.
Edu Lyra: No fim, a casa é onde tudo começa. Onde nasce o amor, o caráter, o sonho. A casa é o primeiro passo para tudo.
Eduardo Fischer: E é também o último, muitas vezes. Porque as pessoas voltam para casa em todos os sentidos. A gente sempre volta pra casa.

Edu Lyra, CEO da Gerando Falcões
"E internamente a gente reforça o tempo todo: o cliente em primeiro lugar. Criamos ritos, por exemplo, o momento que chamamos de Entrega dos Sonhos. É uma celebração, não só para quem recebe, mas pra gente também." Eduardo Fischer